É boa ideia fazer um check-up?

Cada vez mais, os chamados “check-ups” são um motivo comum para que muitos adultos saudáveis, sem queixas ou fatores de risco, consultem o médico. Mas será que esta é uma boa prática? Hoje tentamos esclarecer esta questão com base na melhor evidência científica disponível.

Em primeiro lugar, o que é um check-up geral de saúde?

Os “check-ups” ou os chamados “exames de rotina” são uma série de testes propostos a um indivíduo que não tem sintomas ou fatores de risco, com o objetivo de prevenir ou detetar precocemente uma doença (ou fatores de risco), para assim reduzir a morbilidade (doença) e mortalidade ou para tirar preocupação ao utente.

Nota: É importante distinguir estes check-ups gerais de uma série de exames de rastreio selecionados, por exemplo, pelo seu médico de família de acordo com o seu julgamento clínico. Tentando simplificar, podemos pensar num check-up como um conjunto de exames previamente definidos, independentemente do seu perfil, oferecidos à população geral como um serviço. Contrastando, outra situação frequente, mas diferente, é quando os médicos de família, com base no que conhecem e avaliam da pessoa e seus familiares, propõem um conjunto de exames que consideram adequado ao perfil do utente que têm à frente.

A composição dos check-ups é muito variável, podendo ir desde um conjunto de testes simples (como a medição do colesterol e do o açúcar no sangue), até exames de imagem avançados (como a ressonância magnética). Os check-ups podem ser disponibilizados no contexto de saúde ocupacional a trabalhadores de determinadas empresas, como política de saúde nacional, ou, como acontece em Portugal, como um serviço privado, por preços que variam entre os 275 e 2000 euros.

Nota: As informações que partilhamos neste post baseiam-se em evidência robusta de qualidade (revisão sistemática e metanálise que analisou 17 ensaios clínicos aleatorizados, abrangendo um total de 251.891 participantes). Estes estudos comparavam a realização de check-ups gerais de saúde com a sua não realização (em adultos) e avaliaram resultados clinicamente relevantes (mortalidade global, por cancro e por doença cardiovascular).

Quais os riscos e benefícios de fazer um check-up geral de saúde?

Não se verificaram benefícios na população adulta geral. Esta prática não reduz a morbilidade (doença) ou a mortalidade em geral, por doença cardiovascular ou por cancro. Por outro lado, é importante lembrar que, assim como qualquer ato médico, a realização de testes de rastreio e exames de diagnóstico tem os seus riscos associados. Mais, por vezes dão resultados errados (falso-positivos) ou sem significado que, além de causar ansiedade, podem levar à realização de mais testes (e até tratamentos) sem necessidade.

Concluindo, podemos convictamente afirmar que não existe uma lista de exames que se deva aplicar a toda a gente de forma indiscriminada. A decisão de se efetuarem testes laboratoriais de rastreio (assim como a escolha dos exames a fazer) deve ser baseada na idade, sexo e fatores de risco de cada pessoa. Ainda assim, continua a justificar-se a investigação de testes de rastreio isolados, direcionados a patologias específicas e de preferência estudando resultados clinicamente relevantes como a mortalidade.

Na próxima semana, partilhamos convosco alguns exemplos de testes de rastreio direccionados a patologias específicas assim como as indicações para a sua realização, com base em evidência científica. Algum palpite?

Bibliografia:

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