Vitamina D, o suplemento essencial ou apenas mais um?

Tem-se vindo a falar cada vez mais sobre a vitamina D – a vitamina do sol – por algumas vezes descrita como a solução de inúmeras doenças – mas o que nos diz a ciência hoje?

Onde se encontra a vitamina D?

A vitamina D é produzida sobretudo na nossa pele pela ação da luz solar, mais especificamente dos raios ultravioleta B. A quantidade produzida pelo nosso organismo depende de vários fatores (ex: o tipo de pele e a sua pigmentação, a superfície da pele exposta, o uso de protetores solares, a hora do dia, a estação do ano, ect.). Em determinadas condições, a vitamina D pode ser sintetizada pelo nosso organismo em quantidades suficientes. Por exemplo, uma exposição solar dos braços e pernas por 5 a 30 minutos poderá atingir as necessidades.

Além disso, esta vitamina também pode ser obtida através de alguns alimentos- principalmente peixes gordos (ex: salmão, atum e cavala) e óleos de peixe, mas também fígado bovino, queijo e gemas de ovos – ou pela suplementação vitamínica. Em algumas áreas geográficas (ex: Estados Unidos da América, norte da Europa) a vitamina D também está disponível nos mercados em alimentos fortificados, como leite, cereais de pequeno-almoço e pão. Em Portugal existem no mercado vários suplementos vitamínicos contendo vitamina D.

Porque precisamos desta vitamina?

É indiscutível que a vitamina D tem um papel primordial no metabolismo do cálcio – é uma das hormonas responsáveis por manter os níveis de cálcio no sangue (ao promover a absorção de cálcio e fósforo a partir do intestino e a reabsorção óssea de cálcio). Nas situações de insuficiência crónica de vitamina D, pode ocorrer perda de massa óssea e risco aumentado de fracturas por traumatismos de baixa energia. Assim, sabe-se que é essencial manter níveis adequados de vitamina D para conservar a saúde óssea ao longo da vida, e em particular nas mulheres pós-menopáusicas e idosos, nos quais a osteoporose é mais prevalente.

Por outro lado, nos últimos anos temos ouvido falar cada vez mais de possíveis benefícios da vitamina D noutros contextos clínicos (como por exemplo, na prevenção de cancro e doença cardiovascular). Consequentemente, têm havido cada vez mais solicitações para dosear esta vitamina no sangue, assim como dúvidas em relação ao benefício na sua suplementação.

Antes de aprofundar, queríamos relembrar que:

Infelizmente, como sabemos, nem toda a informação que lemos é igualmente relevante, corretamente interpretada ou justamente publicitada de acordo com a sua importância. Neste sentido, é essencial aprender a filtrar a informação:


Em primeiro lugar, é necessário alertar que existem diferentes tipos de estudo e que temos que ter cuidado ao tirar conclusões da informação que vemos divulgada. Sem querer entrar em pormenores, reparem que apenas um ensaio clínico aleatorizado pode tirar conclusões sobre causalidade ou eficácia de um medicamento. Pelo contrário, um estudo observacional pode mostrar uma associação, mas não permite tirar conclusões de causa-efeito ou eficácia.

Por exemplo, um estudo observacional pode demonstrar uma associação entre uma “maior ingestão de gelados” e um “maior nº de afogamentos”. Porém, não podemos concluir que ingerir mais gelados provoca mais afogamentos (neste caso, uma explicação mais plausível é que no Verão comemos mais gelados e que nesta estação do ano também vamos mais à praia, nadamos mais e, consequentemente, há mais probabilidade de afogamentos). Da mesma forma, um estudo observacional até pode demonstrar uma associação entre a suplementação com vitamina D e diminuição da doença x. No entanto, não podemos concluir que a vitamina D causou essa diminuição. Neste caso, a vitamina D pode ser apenas um marcador de estilos de vida mais saudáveis. Por exemplo, possivelmente, quem escolhe tomar suplementos desta vitamina, também se preocupa em comer de forma mais saudável e fazer mais exercício físico. Com base em estudos observacionais não conseguimos assegurar que é a vitamina D a responsável pelo efeito benéfico observado e não os outros fatores do estilo de vida dessas pessoas.

Posto isto, até ao momento, muitos dos estudos divulgados que demonstram “os benefícios” da vitamina D em diferentes contextos foram estudos observacionais e compararam pessoas que decidiram por si tomar estes suplementos com aqueles que não tomaram.

Felizmente, em Novembro de 2018 publicaram no New England Journal of Medicine os resultados do primeiro grande ensaio clinico aleatorizado controlado com placebo (estudo VITAL) que seguiu 25 871 indivíduos (com mais de 50 anos) durante uma média de 5 anos. Com base nos resultados deste ensaio, aprendemos que:

  • Altas doses de vitamina D não diminuem o risco de desenvolver cancro ou doença cardiovascular (AVC, enfarte agudo miocárdio) na população geral de homens e mulheres saudáveis.
  • Aparentemente, pode reduzir a mortalidade por cancro, mas ainda precisamos de mais estudos para confirmar esses resultados.
  • A dose de 2000 IU/ dia é bem tolerada com poucos efeitos adversos (níveis de cálcio elevados no sangue, pedras nos rins e sintomas gastrointestinais) na população saudável. Ainda assim, algumas pessoas (especialmente as que têm doença renal, pedras nos rins, níveis de cálcio elevados no sangue, doença gastrointestinal ou risco de doença cardíaca devem procurar aconselhamento médico antes de iniciar estes suplementos.
  • Os resultados não apoiam a iniciação de vitamina D em altas doses para a prevenção de cancro ou doença cardiovascular em indivíduos saudáveis que já cumprem os requisitos de vitamina D para manter a saúde óssea.

Em relação a outras patologias, revendo a melhor evidência científica disponível atualmente, não é possível estabelecer uma relação de causalidade entre baixos níveis de vitamina D (25(OH)D3) no sangue e doenças como: esclerose múltipla, diabetes mellitus tipo 2, depressão, cansaço, sintomas de doença respiratória, infecções, osteoartrose ou dor crónica.

Conclusões:

Toda a população deve manter níveis de vitamina D adequados (por exemplo, através da ingestão de alimentos ricos em vitamina D e da exposição solar moderada).

Com base na melhor evidência disponível, parece que a suplementação com vitamina D por rotina não prolonga a vida nem diminui a incidência de cancro, doenças cardiovasculares, diabetes mellitus tipo 2ou fraturas ósseas em pessoas que não apresentam alto risco de fraturas.Além disso, a suplementação de vitamina D não mostrou benefícios no tratamento da depressão, cansaço, sintomas de doença respiratória, infecções, esclerose múltipla, osteoartrose ou dor crónica.

Portanto, com base no que sabemos hoje, não se recomenda a suplementação ou rastreio dos níveis de vitamina D com fins preventivos para a população saudável em geral.

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